À janela

Arrumou a cozinha depois de ter jantado uma sopa. Antes de ir para a cama comeria uma maçã daquelas que a assistente social lhe deixou à porta de casa. Agora mal trocavam umas palavras por causa da pandemia e porque a assistente social tinha mais casas para visitar do que era normal.

Estava uma noite fria e chuviscava, mas gostava sempre de passar alguns minutos à janela a ver o mundo passar. Vivia numa casa, meio rés-do-chão, meio cave, porque a rua é muito inclinada e o que via através daquela pequena janela de madeira branca e vidros já muito pouco cristalinos eram a sua distração, o seu passatempo.

O que via, o que ouvia e o que cheirava mantinham-lhe a imaginação a funcionar numa batalha contra a preguiça, cada vez mais insistente, dos neurónios já cansados. Gostava de ver as pessoas a passar, especialmente os turistas que tinham sempre um sorriso para ela e às vezes tentavam conversar. Mas a sua incapacidade para falar outra língua não permitia que a comunicação fosse além de uma troca de olhares, de um sorriso ou de um acenar. Mas era sempre bom e enquanto via as pessoas a afastar-se da sua janela para o mundo ficava a imaginar quem eram, quais as suas profissões e os países de onde vinham, que ela sempre conheceu através da televisão e dos livros que lia.

Agora ninguém passava… Os dias sucediam-se e as ruas estavam sempre vazias. Já não tinha inspiração para ativar os seus neurónios preguiçosos.

E a noite, fria e chuvosa, ficou ainda mais escura, mais triste.

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