A voz dos sábios – parte 2

Há cerca de um ano escrevi neste blogue um artigo sobre o professor Gonçalo Ribeiro Telles intitulado “A voz dos sábios” e no qual defendi a importância da nossa sociedade recuperar o antigo mas muito válido costume de dar voz aos sábios.

Hoje voltei a ter o impulso de partilhar com todos aqueles que se cruzam com estas palavras mais uma “voz de sábio”. De facto, tenho andado a ouvir umas entrevistas de um podcast do Expresso intitulado “A beleza das pequenas coisas” e a que foi feita ao professor Sobrinho Simões deixou-me siderado.

O espanto, a admiração e todos os demais adjetivos que possa aqui escrever não traduzirão as mensagens comunicadas por este grande cientista que é admirado e respeitado no mundo inteiro.

Foi a sua sabedoria técnica na área da patologia, designadamente a que está ligada ao cancro, mas acima de tudo foi a normalidade de um homem extraordinário por mais paradoxal que isto possa parecer. Sendo o professor Sobrinho Simões o melhor da sua área, também é um pai, um avô, um marido, um médico, um amante de música, cinema ou leitura que exprimiu sem qualquer pudor o que gostava ou não gostava sem se preocupar com o politicamente correto.

E tudo dito com uma serenidade, diria mesmo com ternura e assumindo as suas preferências, os seus medos, as suas idiossincracias, os seus defeitos com uma naturalidade imbatível.

Com ele aprende-se que as pessoas normais podem ser extraordinárias ou, se quiserem, que as pessoas extraordinárias são pessoas normais e nem por isso perdem o seu encantamento, a sua capacidade de serem referência para muitos.

Por tudo isto, recomendo-vos que ganhem uma hora da vossa vida a ouvir esta entrevista incrível porque a voz dos sábios deve ser sempre ouvida!

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A página das soluções

Não sei se acontece o mesmo com toda a gente, mas sinto um fascínio semelhante pelo passado e pelo futuro, não conseguindo definir o que me atrai mais. 

Na verdade, um bom filme ou livro de ficção científica são tão satisfatórios como um romance histórico ou uma obra que versa sobre um povo ou época passados. 

Mas hoje vamos falar do futuro, vamos falar daquilo que podemos esperar para as próximas décadas ou séculos e para isso precisamos de ouvir quem tem a autoridade intelectual para fazê-lo.

Para tal sugiro ouvirmos Stephen Hawking que, naquele que eu considero o seu grande legado para o cidadão comum, o livro Brief Answers to the Big Questions (em português Breves Respostas às Grandes Perguntas), deixa-nos a sua visão do futuro e a resposta (possível) a algumas questões que angustiam a Humanidade desde sempre. 

Este livro é mais uma demonstração da imensa inteligência daquele que foi provavelmente a mente mais brilhante da era moderna apesar das enormes dificuldades físicas que teve que enfrentar, mas soube sempre superar. E a sua inteligência está demonstrada, quer na capacidade para dar respostas a perguntas muito difíceis, quer na simplicidade com que o faz permitindo a qualquer um de nós ler e perceber. 

São dez as perguntas formuladas, para as quais tomo a liberdade de fazer uma tradução livre:

  1. Será que existe um Deus?
  2. Como é que tudo começou? 
  3. Existe mais vida inteligente no universo? 
  4. É possível prever o futuro? 
  5. O que está dentro de um buraco negro? 
  6. É possível viajar no tempo? 
  7. A espécie humana sobreviverá na Terra? 
  8. Devemos colonizar o espaço? 
  9. A inteligência artificial ficará mais inteligente que a Humanidade? 
  10. Como é que poderemos moldar o futuro? 

Não quero estragar o prazer da leitura deste livro fazendo um resumo das respostas, mas quero partilhar algumas mensagens que “recebi” ao viajar pelas páginas desta obra. 

A primeira mensagem, e talvez a mais importante, é a da unidade da espécie humana quando se observa o planeta Terra “de fora”, do espaço. Esta é uma sensação muito diferente daquela que temos enquanto habitantes deste planeta, dado que todos os dias somos confrontados com as divisões que a espécie humana criou, sejam elas culturais, sociais, raciais, religiosas ou outras. Será que ainda vamos perceber a tempo que somos apenas uma espécie que deve conviver unida e com o objetivo de garantir a sua sobrevivência na Terra em harmonia? 

A segunda mensagem está relacionada com a sua data de nascimento, 8 de janeiro de 1942, que ocorre exatamente 300 anos depois da morte de Galileu Galilei (8 de janeiro de 1642). Ora, para muitos este facto era visto não como uma coincidência, mas como um sinal de algo. O espírito científico de Stephen Hawking “destrói” rapidamente qualquer misticismo da sua data de nascimento ao referir que naquele mesmo dia nasceram cerca de 200 000 novos habitantes do planeta Terra, ou seja, ele não era especial por isso. 

A terceira mensagem, que me diz muito, está relacionada com a importância que os professores têm na nossa vida e no nosso crescimento. De facto, Stephen Hawking refere que os professores são importantes pelo conhecimento técnico que nos transmitem, mas também pela forma como nos transmitem esse conhecimento e como partilham com os seus alunos o conhecimento da vida.

A última mensagem que recebi da leitura deste livro também pode, de alguma forma, ser encontrada no livro Sapiens – a brief history of Humankind (em português, Sapiens – história breve da Humanidade) de Yuval Noah Harari. Com efeito, ambos os autores partilham da ideia que a evolução postulada por Charles Darwin da sobrevivência do mais apto/adaptado é hoje uma evolução desenhada pelo Homem, que é necessariamente mais responsabilizante para a Humanidade. Será que estamos “à altura” de receber essa responsabilidade?

São estas as quatro mensagens que destaco da leitura deste livro, mas que não retiram a curiosidade a todos aqueles que ainda não o leram.

Termino referindo que o título deste artigo refere-se ao facto de Stephen Hawking estar neste momento a consultar a “página das soluções” depois de ter procurado resolver alguns dos problemas da Humanidade neste seu último livro.