Mascarar ou curar a dor?

Todos sabemos que as dores com que o nosso corpo nos vai presenteando têm geralmente uma causa.

No entanto, cada vez que uma dor nos aflige geralmente optamos por aguentá-la ou tomamos um analgésico.

Depois passa e esquecemos o mais importante: o que causou aquela dor? Terá sido momentânea ou tem uma causa que a vai fazer voltar e, quem sabe, torná-la cada vez mais insuportável.

Se transpusermos este raciocínio para aquilo que os nossos governantes, atuais e pretéritos, andam a fazer a este País, rapidamente chegamos à conclusão que numa primeira fase agrediram violentamente este corpo que se chama Portugal em nome de um suposto desenvolvimento que se queria rápido (sustentável, logo se via) e agora vão-lhe aplicando doses massivas de analgésicos que, mascarando a dor, vão criando a ilusão de um corpo saudável e em forma para os desafios mais difíceis.

Mas antes de prosseguir o meu raciocínio importa dar nota que não sou economista, gestor, financeiro ou afins, mas que desde sempre fui ensinado que não podemos gastar mais do que recebemos e, se possível, até devemos poupar alguma coisa (poupar significa guardar para o futuro).

Feita esta chamada de atenção, o analgésico a que me refiro é a propaganda que tem vindo a ser feita de pagamentos antecipados àqueles que nos deram a mão (leia-se troika) e que isso significa que estamos no bom caminho e até estamos a poupar dinheiro.

Ora, todos nós sabemos que, com maior ou menor controlo, o País continua a gastar mais do que tem, ou seja, a dívida está sempre a aumentar (com maior ou menor ritmo, mas a aumentar).

Contudo, esquecem-se os nossos governantes de explicar o verdadeiro significado de pedir dinheiro emprestado em melhores condições para pagar outro empréstimo, o que à partida parece um “ovo de Colombo”. Acrescentam ainda que vamos poupar dinheiro em juros, mas o que vai acontecer é que vamos pagar menos juros e não poupar. Poupar significa que ficávamos com dinheiro de reserva, o que neste caso não se acontece. Apenas aumentamos menos a dívida, mas aumentamos.

Ou seja, ficamos com a ilusão que estamos a tratar a dor e que ela não volta, mas verdadeiramente o que se está a conseguir é apenas algum alívio temporário até à próxima crise. E as crises serão sucessivamente mais graves se não tratarmos a verdadeira doença (leia-se o País gasta mais do que tem).

Chegou o momento de tratar a doença, chegou o momento de assumirmos que o dinheiro que temos é para o essencial, isto é, não há dinheiro para jantar fora, férias luxuosas ou ir ao cinema (leia-se não há dinheiro para mais nada enquanto todos os portugueses que queiram trabalhar, que já trabalharam ou que por alguma razão são desfavorecidos tenham o indispensável para ter uma vida digna).

Exijamos que quem nos governa o faça por bons princípios e não por interesses mascarados de princípios.

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