Os Portugueses e a produtividade

A produtividade dos Portugueses no trabalho é um argumento muito utilizado por todas as áreas políticas, embora com objetivos diferentes.

Com efeito, aqueles que acham que os nossos salários são baixos dizem que somos pouco produtivos porque o nível salarial é demasiado baixo. Por outro lado, temos aqueles que dizem que primeiro é necessário aumentar a produtividade e a subida salarial é uma consequência desse aumento.

Ora, ressalvando que não sou nem economista, nem político, nem especialista em gestão de recursos humanos, mas sou um recurso humano, entendo que todos temos uma opinião sobre a produtividade, a sua importância e sobre os fatores que mais contribuem para o seu resultado.

De facto, estou cada vez mais convencido que a falta de produtividade não é uma característica dos Portugueses, não é uma inabilidade inata com que nascemos, não é uma fatalidade.

Aliás, os Portugueses são conhecidos pela sua grande capacidade de trabalho quando estão inseridos noutros ambientes, pela sua grande capacidade de adaptação a novas realidades e culturas organizacionais. Nunca é de mais relembrar que fomos importantes na recuperação da Europa na segunda metade do século XX, designadamente em França, ou que, por exemplo, 30 % da população do Luxemburgo é Portuguesa e este é um país com níveis salariais e de qualidade de vida muito elevados.

Em resumo, parece-me claro que a falta de produtividade não é uma fatalidade do povo lusitano. Antes pelo contrário, temos é uma grande capacidade de adaptação.

Então, por que razão será o nosso país pouco produtivo? Aliás, uma consulta ao sítio da Pordata (www.pordata.pt) permite constatar que o país mais produtivo da UE 27 é precisamente o Luxemburgo e Portugal está na segunda metade da tabela acompanhado de todos aqueles que entraram na União Europeia muito depois de 1986.

É assim que antes de pensarmos como aumentar a produtividade ou conformarmo-nos com o alegado fado de sermos pouco produtivos, devemos procurar a verdadeira causa da falta de produtividade em Portugal e da excelente produtividade dos Portugueses noutros ambientes.

Para mim, que recordo que não sou um especialista de recursos humanos, mas sou um recurso humano, a chave está nas lideranças e na cultura organizacional. E não sou o único a pensar assim (ver este artigo e lê-lo com muita atenção).

Qual é o incentivo para ser produtivo para o colaborador de uma empresa, de uma indústria, de uma instituição pública, quando as suas lideranças movem-se pelos privilégios de ser líder e não pela responsabilidade de liderar. A verdade é que a ascensão nas carreiras profissionais está centrada, em regra, pela vontade de ganhar mais, pela vontade de um carro melhor, pela vontade de ter um gabinete e deixar de estar em open space, pela vontade de mandar e não ser mandado.

Qual é o incentivo de um trabalhador para ser produtivo quando ganha 52 vezes menos comparativamente aos que o dirigem (ver este artigo relativo a 2018)?

A ascensão nas carreiras profissionais deveria ser motivada pela possibilidade de fazer diferente, pela possibilidade de fazer melhor, pela possibilidade de contribuir positivamente para um determinado desiderato, pela possibilidade de definir um propósito.

Um líder não é um privilegiado, é um “responsabilizado”.

Mas como esta não é, infelizmente, a realidade média portuguesa, os Portugueses usam a sua incrível capacidade de adaptação, que é muitas vezes confundida com “desenrascanço”, para sobreviver numa cultura organizacional muito desigual que grassa em Portugal, quer em instituições privadas, quer em instituições públicas.

Infelizmente, um dos resultados desta adaptação é uma efetiva produtividade baixa que mutila a nossa possibilidade de melhorarmos a qualidade de vida de todos e de cada um.

Por todas estas razões, acredito firmemente que para Portugal aumentar a sua produtividade significativamente terá que mudar de lideranças ou as lideranças atuais terão que mudar a sua atuação.

Se assim não for estaremos condenados a fechar o pelotão numa corrida onde só vemos as costas dos melhores.