Uma Sociedade das Nações

No meu artigo “A página das soluções” escrevi sobre o livro de Stephen Hawking que foi publicado pouco tempo depois da sua morte e sobre algumas mensagens que retirei da sua leitura (também podem ver este vídeo sobre o mesmo assunto).

Uma dessas mensagens, talvez a mais importante, é a noção de unidade da Humanidade que se tem quando olhamos para o planeta Terra “de fora”, do Espaço. Esta mensagem de unidade, apesar de óbvia, não é de implementação fácil, sendo considerada por muitos uma utopia.

Aliás, sendo eu um monárquico convicto e defensor do Estado-Nação que é Portugal, esta mensagem de unidade da Humanidade pode ser um pouco paradoxal e criadora de conflitos nas minhas reflexões.

Contudo,além de monárquico sou bioquímico e, nesta vertente, o conceito de unidade da Humanidade não oferece qualquer resistência, dado que do ponto de vista biológico não há diferenças assinaláveis entre as diferentes comunidades de Homo sapiens. De facto, quando procuramos diferenças elas apenas existem nos aspetos construídos pelo Homem (organizaçao social, religiosa ou cultural), como tão bem refere Yuval Noah Harari no seu livro “Sapiens – História Breve da Humanidade”.

Mas de que modo é que o conceito de unidade da Humanidade liga com o título deste artigo, com a existência de uma Sociedade das Nações? Ora, como já escrevi neste blogue a minha atração pelo passado e pela história é, de certo modo, compensada pelo meu fascínio pelo futuro, pela exploração espacial e pelo desenvolvimento da ciência.

Este interesse pelo futuro materializo-o no “consumo” de ficção científica, além do acompanhamento das novidades que as diferentes áreas da ciência nos vão oferecendo todos os dias. Ora, a ficção científica é muitas vezes uma janela para o futuro, o buraco da fechadura através do qual podemos ver “o que vem a seguir”.

Uma das coisas que tenho “espreitado” é este conceito de Sociedade das Nações, mas gostava primeiro de vos deixar aqui uma analogia: imaginem que o bairro onde moram representa o planeta Terra e cada casa uma nação. De que serve terem a vossa casa organizada e limpa se o bairro no seu conjunto viver no caos, ou seja, sendo verdade que é muito importante que cada um cumpra o seu papel, existe sempre uma necessidade adicional de organização macro que faça a gestão dos interesses coletivos na ótica comunitária.

A verdade é que enquanto persistirem e vingarem as diferenças entre as diversas comunidades de Homo sapiens esta visão de uma Humanidade una nunca passará do espectro das ideias.

São várias as obras de ficção científica que preconizam a existência de uma Sociedade das Nações, de um governo mundial, de uma estrutura supranacional. Estou consciente que a ideia de concentração de poder coloca muitos problemas e desvantagens, mas também sei que sem uma harmonização e harmonia entre todas as “casas do bairro” em matérias essenciais para a sobrevivência da Humanidade, a manutenção da nossa existência é uma realidade cada vez mais longínqua.

Recentemente foram transmitidas duas temporadas da série televisiva Mars que aborda a possibilidade de “terraformarmos” o planeta vermelho (Marte) para uma eventual colonização pelo Homem. É importante realçar que o conteúdo desta série está muito mais próximo da realidade do que da ficção científica numa perspetiva de médio prazo. Numa vertente mais ficcional recomendo o visionamento da série The First transmitida em Portugal pelo canal AMC.

Ora, esta preocupação de colonizar outro planeta não é apenas curiosidade natural do Homem, mas também uma necessidade dado o rumo que temos dado ao planeta Terra. Recordo que Stephen Hawking referiu mais do que uma vez que a colonização de outro planeta é um processo indispensável à sobrevivência da espécie humana, uma vez que as condições do planeta Terra e a forma como estamos a usar (melhor é abusar) dos seus recursos irão conduzir a um estado de insustentabilidade que é incompatível com a vida humana. Este grande cientista deu como última previsão o prazo de 600 anos para o Homem atingir este objetivo de colonização.

A série Mars retrata muito bem alguns dos problemas de governação que poderão ocorrer e a sua dificuldade de resolução mesmo num enquadramento de governação mundial. Considerando que a exploração espacial deve ser, e é cada vez mais, um projeto global é fundamental que os modelos de governação também evoluam para a globalidade e colocando em segundo plano as diferenças não biológicas entre as diferentes comunidades de Homo sapiens.

Para um objetivo uno que é a nossa sobrevivência, precisamos de uma Humanidade una e de uma governação una.

A página das soluções

Não sei se acontece o mesmo com toda a gente, mas sinto um fascínio semelhante pelo passado e pelo futuro, não conseguindo definir o que me atrai mais. 

Na verdade, um bom filme ou livro de ficção científica são tão satisfatórios como um romance histórico ou uma obra que versa sobre um povo ou época passados. 

Mas hoje vamos falar do futuro, vamos falar daquilo que podemos esperar para as próximas décadas ou séculos e para isso precisamos de ouvir quem tem a autoridade intelectual para fazê-lo.

Para tal sugiro ouvirmos Stephen Hawking que, naquele que eu considero o seu grande legado para o cidadão comum, o livro Brief Answers to the Big Questions (em português Breves Respostas às Grandes Perguntas), deixa-nos a sua visão do futuro e a resposta (possível) a algumas questões que angustiam a Humanidade desde sempre. 

Este livro é mais uma demonstração da imensa inteligência daquele que foi provavelmente a mente mais brilhante da era moderna apesar das enormes dificuldades físicas que teve que enfrentar, mas soube sempre superar. E a sua inteligência está demonstrada, quer na capacidade para dar respostas a perguntas muito difíceis, quer na simplicidade com que o faz permitindo a qualquer um de nós ler e perceber. 

São dez as perguntas formuladas, para as quais tomo a liberdade de fazer uma tradução livre:

  1. Será que existe um Deus?
  2. Como é que tudo começou? 
  3. Existe mais vida inteligente no universo? 
  4. É possível prever o futuro? 
  5. O que está dentro de um buraco negro? 
  6. É possível viajar no tempo? 
  7. A espécie humana sobreviverá na Terra? 
  8. Devemos colonizar o espaço? 
  9. A inteligência artificial ficará mais inteligente que a Humanidade? 
  10. Como é que poderemos moldar o futuro? 

Não quero estragar o prazer da leitura deste livro fazendo um resumo das respostas, mas quero partilhar algumas mensagens que “recebi” ao viajar pelas páginas desta obra. 

A primeira mensagem, e talvez a mais importante, é a da unidade da espécie humana quando se observa o planeta Terra “de fora”, do espaço. Esta é uma sensação muito diferente daquela que temos enquanto habitantes deste planeta, dado que todos os dias somos confrontados com as divisões que a espécie humana criou, sejam elas culturais, sociais, raciais, religiosas ou outras. Será que ainda vamos perceber a tempo que somos apenas uma espécie que deve conviver unida e com o objetivo de garantir a sua sobrevivência na Terra em harmonia? 

A segunda mensagem está relacionada com a sua data de nascimento, 8 de janeiro de 1942, que ocorre exatamente 300 anos depois da morte de Galileu Galilei (8 de janeiro de 1642). Ora, para muitos este facto era visto não como uma coincidência, mas como um sinal de algo. O espírito científico de Stephen Hawking “destrói” rapidamente qualquer misticismo da sua data de nascimento ao referir que naquele mesmo dia nasceram cerca de 200 000 novos habitantes do planeta Terra, ou seja, ele não era especial por isso. 

A terceira mensagem, que me diz muito, está relacionada com a importância que os professores têm na nossa vida e no nosso crescimento. De facto, Stephen Hawking refere que os professores são importantes pelo conhecimento técnico que nos transmitem, mas também pela forma como nos transmitem esse conhecimento e como partilham com os seus alunos o conhecimento da vida.

A última mensagem que recebi da leitura deste livro também pode, de alguma forma, ser encontrada no livro Sapiens – a brief history of Humankind (em português, Sapiens – história breve da Humanidade) de Yuval Noah Harari. Com efeito, ambos os autores partilham da ideia que a evolução postulada por Charles Darwin da sobrevivência do mais apto/adaptado é hoje uma evolução desenhada pelo Homem, que é necessariamente mais responsabilizante para a Humanidade. Será que estamos “à altura” de receber essa responsabilidade?

São estas as quatro mensagens que destaco da leitura deste livro, mas que não retiram a curiosidade a todos aqueles que ainda não o leram.

Termino referindo que o título deste artigo refere-se ao facto de Stephen Hawking estar neste momento a consultar a “página das soluções” depois de ter procurado resolver alguns dos problemas da Humanidade neste seu último livro.