Portugal e Angola

Acabei de ler quase de um fôlego os livros “Luanda como ela era 1960-1975” e “S.O.S. Angola – os dias da ponte aérea” da Rita Garcia.São 15 anos alucinantes com muitas coisas boas e muitas coisas más, nos quais fica evidente que a diferença está sempre nas pessoas e na capacidade de fazer o que é correto. Os relatos destes dois livros mostram de forma muito clara que “o certo e o errado” são sempre dependentes do referencial que temos definido no nosso sistema cartesiano.

Contudo, é importante que estas memórias não se percam porque fazem parte da história de povos afastados por milhares de quilómetros, mas que terão sempre a uni-los uma identidade suportada pelo maior património de um povo: a língua.

Sejamos capazes de ceder à tentação fácil dos ódios individuais e dos interesses económicos para não perder o que levou séculos a cimentar apesar dos erros cometidos por ambas as partes.

Sejamos capazes de unir novamente o que a história e os homens separaram, mas que essa união seja “atada” com laços culturais e de cooperação entre iguais.

D. Duarte não precisa de protocolo – resposta a Ascenso Luís Simões

Quando procurei o nome para o meu blogue confesso que não saiu à primeira e, mesmo com toda a ponderação, pode não ser muito apelativo. Contudo, representa bem uma faceta importante de mim e confirmo que sou um Monárquico inconformado.

Sou inconformado com a situação de um País e de um Povo que potencialmente poderia ser muito maior do que é e do que já foi.

Por esta razão, tendo sido confrontado com a opinião do deputado Ascenso Luís Simões à petição para a inclusão do Senhor D. Duarte no Protocolo do Estado, não poderia deixar de reagir.

Embora o referido deputado dê, como o Povo sabiamente diz, “uma no cravo, outra na ferradura”, a verdade é que o seu texto é um belo exemplo do trabalho de esclarecimento e sensibilização que é preciso fazer na sociedade portuguesa para desmistificar um conjunto de preconceitos relativos à monarquia e que continuam a grassar por aí e a encher as bocas de alegados entendidos na matéria.

Começando pelo início, refere Ascenso Luís Simões, “Portugal é uma república, não vive com problemas profundos de identidade…”. Ora, esta é uma daquelas situações em que o Povo, também sabiamente, refere que “uma mentira dita muitas vezes transforma-se numa verdade”. Todos nós conhecemos a história deste grandioso País e sabemos que a opção pela república nunca foi verdadeiramente confirmada por só quem pode fazê-lo: os Portugueses. Todos sabemos que a república está impunemente sentada num crime covarde contra alguém que nunca virou as costas ao seu Povo e nunca quis proteção porque o lugar de um rei é junto de quem o legitima para representar e chefiar uma nação.

Ninguém fica indiferente quando se refere que este ou aquele presidente da república se comporta como um rei, querendo esta expressão dizer que está próximo dos seus, que sente as dores daqueles que o aclamam. Ora, este tipo de pensamento não é mais do que um reconhecimento implícito que o modelo a seguir é o da monarquia.

Mas, não nos detenhamos apenas nestes aspetos e continuemos a análise da opinião do deputado Ascenso Luís Simões.

Diz o deputado que D. Duarte é visita assídua das comunidades locais. Com efeito, este é o reconhecimento de que o legítimo herdeiro ao trono de Portugal continua a exercer a sua função, apesar de destituído da mesma. Recordaria a este propósito um excelente trabalho que a revista Sábado fez há uns meses entrevistando um conjunto de “senadores” portugueses sobre o futuro de Portugal. Foi opinião unânime que Portugal deveria recuperar a ligação cultural e histórica junto daqueles que constituíram a história lusa além mares. Esta é uma missão que o Senhor D. Duarte faz com grande competência, empenho, sentimento e responsabilidade, ao contrário da república que apenas se preocupa com as vantagens económicas e toma decisões desenquadradas de uma história que não pode ser apagada nem esquecida. Nunca é demais relembrar Timor, esquecido pela república e recuperado para a paz e fim da opressão pelo Senhor D. Duarte.

Diz ainda o senhor deputado que a petição sofre de falta de juízo. Não querendo retribuir o cumprimento a Ascenso Luís Simões, quero apenas dizer-lhe que coloca em causa um conjunto significativo de personalidades da sociedade portuguesa, bem como um enorme conjunto de cidadãos, no qual me incluo, que de forma muito ajuizada entendem que a petição faz todo o sentido. Aliás, atrevo-me a dizer que a república é que sofre de “falta de juízo” por não reconhecer por si a importância protocolar do Senhor D. Duarte.

No seguimento do seu texto, Ascenso Luís Simões revela alguns acertos, designadamente quando refere que a causa monárquica precisa de encontrar uma linha de afirmação nacional e as formas de se aproximar dos portugueses. Mas logo a seguir estraga “o pano” com uma enorme nódoa ao referir “as mixórdias das reais associações” ou os “jantares dos conjurados”. Começando pelo fim, foi a coragem dos conjurados que deu a independência e a liberdade a Portugal e também a república deveria prestar-lhes uma homenagem, uma vez que homens daquela têmpera é que fizeram este País.

Quanto ao epíteto dado às reais associações, apenas posso dizer que é a opinião de um republicano muito mal informado e, como tal, não faz jurisprudência.

A referência que os monárquicos preferem viver do passado também revela um enorme desconhecimento, embora compreensível. De facto, um republicano quando olha para o passado da república não vê nada de bom, ou seja, desde 1910 são muito poucos os factos e motivos para recordar. Aliás, quaisquer 100 anos da monarquia portuguesa são melhores do que os últimos 100 anos da república. Não é difícil assumir que a primeira e segunda repúblicas foram verdadeiramente desastrosas para Portugal e esta terceira república o que tem de bom foi alimentado por uma enorme quantidade de dinheiro, mas que representa uma efetiva perda de soberania. Quanto ao passado que os monárquicos recordam, serve essencialmente para perceber as razões e as qualidades de um Povo que sendo pequeno foi enorme, que sendo poucos foi muitos espalhados pelas Sete Partidas.

Em resumo, decifrar o passado serve para deslindar o futuro e mesmo um passado republicano, como é o do último século, deveria ser para perceber tudo o que não fazer novamente.

Finalmente falemos de limpezas como refere o deputado Ascenso Luís Simões. Sobre este aspeto recordaria as sábias palavras de Jesus Cristo que são ensinamentos para crentes e não crentes: “…aquele que nunca pecou que atire a primeira pedra…”.

O senhor deputado sabe muito bem por onde devem começar as limpezas e não é certamente pelas companhias do Senhor D. Duarte e do seu filho, D. Afonso. A este propósito recordo-lhe as palavras de Eça de Queiroz, que certamente não precisa que transcreva neste texto.