Analisar, corrigir e aprender

Os números desta epidemia em Portugal não mostram abrandamento e temos assistido a tentativas desesperadas para encontrar culpados e que têm redundado em fracassos, dado que sempre se encontra um alegado culpado pela não diminuição dos números rapidamente se percebe que afinal não era “ele” e há que encontrar outro para “entreter” as notícias e as conversas de café.

Continuamos todos a acreditar que há um conjunto de pessoas cuja única ocupação diária é conspirar e enganar os portugueses. Eu não faço parte do grupo que acredita nas conspirações, eu faço parte do grupo que acredita que a maioria dos envolvidos faz o melhor que sabe e o melhor que pode. Contudo, a verdade é que esta epidemia apenas tem demonstrado as fragilidades existentes no nosso País, que têm sido ignoradas há décadas e cuja resolução pelos diferentes gestores passa essencialmente por minimização das consequências que os problemas trazem em vez de se centrarem na resolução das suas causas.

Este é um aspeto crucial na resolução definitiva dos problemas, que quando não é implementado dificulta-nos a capacidade de resposta em situações de emergência. Estejamos todos cientes que em situações de emergência, os seus agentes causadores (fenómeno meteorológico, incêndio, inundação, seca, um desastre ambiental, um problema de saúde pública), não são sensíveis às nossas incapacidades orçamentais de capacitar melhor os técnicos que existem, de investir mais em investigação e desenvolvimento, de desenvolver tecnologias e estratégias que incrementem a resiliência da sociedade perante as ameaças, de contratação das pessoas certas para os lugares certos.

Temos que assumir, de uma vez por todas, que há necessidade de estarmos preparados, que há necessidade de desenvolver e implementar efetivamente enquadramentos regulatórios que sejam capazes de em situações de rotina manter-nos alerta e em situações de emergência dotar-nos de uma capacidade de resposta imune aos profetas da desgraça e aos fanáticos das teorias da conspiração.

Concretizando para a situação que vivemos, a notícia que partilho traz uma metodologia que está em desenvolvimento acelerado na Holanda e que outros países, incluindo Portugal, também estão a acompanhar e a implementar.

Esta metodologia dá-nos uma nova visão das águas residuais (esgotos), que deixam de ser apenas um objeto de tratamento para proteção do ambiente e um recurso de reutilização da água, para passarem também a ser um espelho das nossas atividades, dos nossos consumos.

E esta nova visão tem uma utilização imediata para acompanharmos a evolução da epidemia de COVID-19 e até validar os números que são todos os dias, num esforço só compreendido pelos envolvidos e merecedor de um reconhecimento de todos nós, divulgados em conferências de imprensa.

É preciso que tenhamos todos noção que nos bastidores de uma conferência de imprensa diária que dura alguns minutos está um trabalho hercúleo efetuado por muita gente, muitas vezes em condições técnicas e de recursos humanos muito dificeis. E, por esse esforço, deixo aqui os meus parabéns e o meu agradecimento a todos aqueles que recolhem amostras, analisam amostras, produzem resultados, reportam resultados, interpretam resultados, decidem em função de resultados e apresentam publicamente as suas conclusões.

Os ensaios da água residual podem vir mostrar que os números e as tendências estão corretas ou, em caso contrário, identificar as fragilidades que importa corrigir agora e para sempre.

Ninguém faz tudo bem, ninguém acerta sempre, ninguém tem as soluções certas para tudo.

A nossa obrigação é estarmos preparados, atentos e capazes de reagir às dificuldades que todos os dias surgem e importa resolver. Mas também é importante que saibamos que corrigir é normal, o que não é normal numa situação de emergência é acertar nas respostas todas, o que não é normal é exigir que se acerte nas respostas todas.

Voltando à monitorização das águas residuais, não esqueçamos que esta metodologia não deve ser esquecida depois de tudo passar, ou seja, como se diz agora na altura em que #vaificartudobem.

Esta metodologia deve ser consagrada como ferramenta de monitorização regular de prevalência de doenças, de produtos químicos que estejam na cadeia alimentar, de consumo de fármacos ou substâncias ilegais, por exemplo. É fundamental que os estudos existentes nestas áreas tenham uma consequência nas rotinas de monitorização dos agentes responsáveis pela proteção ambiental, pela proteção da saúde pública, pela proteção da segurança alimentar, pela proteção no consumo de medicamentos, pela utilização de produtos de cuidado pessoal nocivos, pela proteção da nossa segurança.

28 de outubro de 1856

28 de outubro de 1856

Neste dia foi inaugurado o primeiro troço da linha férrea portuguesa entre Lisboa e o Carregado.

Inauguração_do_caminho_de_ferro

Esta linha tinha uma extensão de 36,5 Km e o comboio tinha duas locomotivas (Portugal e Coimbra) e dezasseis carruagens. Na viagem inaugural seguiam o rei D. Pedro V e o Cardeal Patriarca de Lisboa.

Esta obra foi apresentada como “grande ícone da regeneração e da política fontista de progresso nacional”, embora tivesse sido muito criticada por homens das letras como Almeida Garrett que criticou a introdução dos caminhos de ferro em Portugal. Este escritor entendia que este não era o progresso que Portugal precisava e receava que este meio de transporte acentuasse o fosso entre as grandes cidades do litoral e o interior.

Personalidade nascida neste dia

No dia 28 de outubro de 1863 nasceu no Funchal Luís da Câmara Pestana, que se destacou como um dos pioneiros da bacteriologia.

Foi um destacado higienista e professor universitário, formado na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa com uma tese intitulada “O Micróbio do Carcinoma”. Em 1890 foi nomeado professor de Higiene, Medicina Legal e Anatomia Patológica da escola onde se formou e dois anos mais tarde criou o Instituto Bacteriológico de Lisboa.

A sua afirmação em matéria de higiene e saúde pública deu-se ao demonstrar que o bacilo da epidemia de Lisboa de 1894 não era o vibrião da cólera.

Morreu no dia 15 de novembro de 1899 vítima da epidemia de peste que combatia na cidade do Porto.

Luís_da_Câmara_Pestana