A revolução silenciosa

No último quarto de século o País tem vindo a melhorar um conjunto de infraestruturas básicas, o que tem vindo a permitir aos portugueses uma qualidade de vida incrementalmente melhor, embora em muitas áreas ainda com deficiências decorrentes da nossa falta de planeamento e, acima de tudo, de uma utilização menos eficaz do que a desejável do que têm sido as ajudas financeiras da União Europeia.

Assim, apesar das melhorias, globalmente e comparativamente com os nossos parceiros europeus continuamos na cauda da Europa.

Existem no entanto exceções que confirmam a regra, ou seja, setores onde, apesar de todas as nossas limitações para gerir abundância de recursos financeiros, atingimos uma posição, que nestas áreas específicas, é muito diferente da nossa classificação global.

Alguns destes setores são mais mediáticos e os portugueses acabam por ter a noção das evoluções conseguidas, enquanto que noutros, menos presentes na comunicação social, acabam por passar despercebidos, mesmo quando estão “debaixo do nosso nariz”.

Um bom exemplo é a qualidade da água da torneira, setor que viveu no último quarto de século uma revolução silenciosa.

De facto, tanto mudou e tão poucos se aperceberam.

Recordemos que em 1993, sete anos depois de entrarmos oficialmente na Comunidade Económica Europeia, apenas 50 % da água da torneira era considerada segura, ou seja, beber água da torneira era como atirar uma moeda ao ar e escolher cara ou coroa.

Paralelamente, estávamos nos anos 90 do século passado convencidos que o País era desenvolvido, o dinheiro entrava tal qual a água jorrava das fontes, os portugueses compravam casa, carro, mobílias e férias ao preço do crédito à habitação e vivíamos uma aparente era de prosperidade.

Contudo, beber água da torneira não era de todo um ato seguro do ponto de vista da proteção da saúde humana e todos se lembrarão da necessidade de comprar garrafões de água, quando nas nossas merecidas férias e pagas a taxas de juro anormalmente baixas graças a algo chamado de Euribor, nos deslocávamos no carro novo até ao reino dos Algarves.

Silenciosamente estava uma revolução em curso, que partindo da utilização dos dinheiros que chegavam dos novos colegas europeus, promoveram uma reorganização dos serviços de abastecimento de água.

Esta reorganização, pela sua grandeza, foi apresentando algumas falhas acopladas a algumas decisões políticas locais, regionais e nacionais que nem sempre contribuíram para um caminho mais célere, mas mais do que tudo geraram um resultado final extremamente positivo.

Este resultado, materializado na segurança com que hoje bebemos a água da torneira (agora o indicador passou dos 50 % para os 99 %), apenas foi possível com esta revolução silenciosa.

Uma revolução feita com base no trabalho de dezenas de milhares de trabalhadores espalhados pelo País nas entidades gestoras dos sistemas de abastecimento de água, nos laboratórios de controlo da qualidade, nas autoridades de saúde, nas administrações locais, regionais e centrais, na academia, nos centros de excelência, nos laboratórios de referência e em todos os lugares onde se tomaram decisões que nos fizeram chegar até aqui.

Muitas vezes pergunta-se como foi possível conjugar a vontade de tantos intervenientes a seguir o mesmo caminho numa ação concertada.

Foi e está a ser uma revolução silenciosa porque está a entrar nos nossos hábitos beber água da torneira, sem nos darmos conta que há tão poucos anos não o podíamos fazer com segurança.

Mas são as revoluções silenciosas que se entranham, solidificam e adquirem um elevado grau de perenidade.

Não nos esqueçamos que o maior avanço da medicina é o saneamento, ou seja, são estas as evoluções que de forma muito significativa contribuíram e continuam a contribuir em muitas áreas deste planeta para o aumento da esperança média de vida, para a diminuição das taxas de mortalidade infantil e para o aumento generalizado da melhoria das condições de vida.

Celebremos esta revolução silenciosa bebendo todos os dias água da torneira, silenciosamente como mandam as regras de boa educação, mas conscientes do valor que tem podermos fazê-lo com total segurança.

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