Resposta a Ascenso Luís Simões – 2.0

Um século de história perdido pela república

Há cerca de um ano, mais precisamente no dia 12 de abril de 2017, o deputado Ascenso Luís Simões publicou no Jornal I um artigo intitulado “D. Duarte não precisa de protocolo“, ao qual respondi neste blogue com o post D. Duarte não precisa de protocolo – resposta a Ascenso Luís Simões.

São vários os incómodos e desacertos do deputado da nação relativamente aos monárquicos e à causa monárquica, que voltaram a ser manifestados num artigo de opinião publicado no Jornal Público no dia 27 de março de 2018 e com o título “Carta a D. Duarte Pio“.

Neste artigo, cuja escrita justifica com a efeméride dos 210 anos da chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, volta, como diz o povo, a dar “uma no cravo e outra na ferradura” na causa monárquica.

Em primeiro lugar levanta a questão da sucessão da Dinastia de Bragança que, apesar de algumas opiniões minoritárias e quase silenciosas, não é verdadeiramente uma questão para os monárquicos portugueses que reconhecem em Dom Duarte Pio o legítimo herdeiro do trono de Portugal, sendo inclusivamente atribuído-lhe por muitos o cognome de “O Conciliador”.

Ora, este cognome é porque a pessoa do Senhor Dom Duarte converte a Dinastia de Bragança de “autorizadora da última grande contenda fratricida”, como refere Ascenso Luís Simões, para unificadora da Família Real Portuguesa como facilmente se percebe ao observar a sua árvore genealógica.

É lamentável que se considere que o país não tem agenda para o debate sobre a manutençao da república ou o regresso da monarquia, o que vem apenas demonstrar um certo “peso na consciência” dos republicanos e defensores da forma como a monarquia foi afastada.

Nunca é demais referir que o atual regime tem os seus alicerces fundados no sangue do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro D. Luiz Felipe. E este “peso na consciência” nunca foi atenuado, por exemplo, com um pedido de desculpas da república ao povo português pelo facto de muito poucos terem tomado uma decisão que afetou muitos e recorrendo a um crime hediondo, cruel e infâme.

A verdade é que o Papa pediu desculpas pelo abusos sexuais cometidos por membros da Igreja, pelos crimes cometidos pela Inquisição e a Alemanha pediu perdão a Israel pelo Holocausto. A República Portuguesa nunca pediu perdão aos portugueses por ter assassinado o seu legítimo chefe de Estado e o príncipe herdeiro quando estes eram aclamados pelo povo e estavam completamente desprotegidos.

O tempo não apagará a memória e certamente os monárquicos não deixarão que tal aconteça.

Por tudo isto, a discussão do regime da chefia de Estado em Portugal tem que ter agenda, tem que ter tempo para reflexão e, acima de tudo, tem que ter tempo para esclarecer os portugueses que se devem pronunciar por algo que lhes foi imposto e nunca perguntado.

Porventura, será esta uma das grandes diferenças entre a monarquia e a república, já que a primeira quer dar a voz ao povo e a segunda deixa o tempo passar para tentar apagar a memória.

Aliás, é urgente que se dê início ao debate porque a república teve 100 anos para mostrar o que valia e, em boa verdade, mostrou muito pouco. O século XX, que pode ser chamado o século republicano, foi um tempo perdido e quem o diz é a História.

No período de pouco mais de 100 anos definiu-se o território português, tornando Portugal, a par da Dinamarca, o Estado-nação mais antigo da Europa; no período de cerca de 100 anos Portugal foi do Norte de África até ao Brasil, passando pela Índia, criando o primeiro movimento globalizador que ainda hoje persiste. É um facto reconhecido que o fizemos mais pela assimilação e integração cultural do que pela força, ao contrários dos espanhóis, dos ingleses ou dos holandeses e a todo este processo não é alheia a lentidão com que povoámos os territórios que íamos descobrindo. Deixamos a nossa marca na língua, na cultura, na gastronomia, nos edifícios e acima de tudo na memória dos povos.

Há poucos meses atrás um colega do Butão disse-me que tinham sido dois portugueses os primeiros estrangeiros a chegar a este país e não eram militares ou conquistadores, eram dois monges jesuítas. Foi assim que descobrimos o Mundo!

E o que fez a república em 100 anos? A I República levou-nos para o caos, a corrupção, o assassinato de chefes de Estado e para a I Grande Guerra onde fomos absolutamente dizimados apesar da bravura inexcedível dos soldados portugueses. A II República manteve-nos num regime de “orgulhosamente sós” com um povo cuja natureza era globalizar e “bateu o pé” a uma descolonização incontornável com consequências dramáticas para diversas gerações de portugueses e africanos. E a III República? Em primeiro lugar abandonou todos os militares que defenderam a nação lusa em terras de África, destruindo não só a vida dos soldados como das suas famílias, já que muitos, sem qualquer apoio, deixaram-se enredar pelas teias do alcoolismo ou da violência doméstica para tentar apagar os pesadelos que os atormentavam e atormentam durante a noite. A III República deu-nos também três intervenções financeiras externas para nos livrar da bancarrota e para aqueles que argumentam que o País evoluiu muito nas últimas décadas eu assumo a minha concordância com uma ressalva: a década de 90 do século XX foi caraterizada pela entrada em Portugal de verdadeiras fortunas vindas da Comunidade Económica Europeia apenas comparável com a riqueza resultante da descoberta de novos territórios como o Brasil e a Índia. Mas mais uma vez há uma ressalva, o dinheiro proveniente dos Descobrimentos era o resultado do nosso esforço, o da Comunidade Económica Europeia foi oferecido…

Em resumo, o que nos trouxe o século XX republicano? Problemas, atraso e esmolas.

O livro “1910 a Duas Vozes” escrito a “duas mãos” pelos professores Mendo de Castro Henriques e Fernando Rosas mostram bem o que a república prometeu e não conseguiu cumprir.

E a discussão do modo de escolha da chefia de Estado não se esgota porque o argumento republicano que todos os cidadãos têm o direito de poder ser chefe de Estado não é mais do que uma falácia como demonstra a História. Em 20 presidentes da república portuguesa quantos são os que não saíram da esfera política e em casos excecionais do setor militar? Zero, talvez seja a resposta certa…

Não vale a pena criarmos ilusões já que a república promete mas não cumpre. A verdade é que o regime republicano veio politizar a chefia de Estado contrariando a tão invocada isenção que nunca tem condições de ser efetiva. A república veio fazer com que as teias políticas se estendessem dos poderes executivos aos poderes representativos da nação com os resultados descritos atrás e em apenas 100 anos.

A este propósito, gostaria de recordar que o deputado Ascenso Luís Simões defende, ou pelo menos, defendeu recentemente que o presidente da república deveria ser eleito por sufrágio indireto em vez de direto como acontece hoje, ou seja, colocar na mão de muitos poucos a decisão de quem nos representa, esvaziando o papel dos cidadãos neste processo.

Ao invés, um Rei é unânime, reconhecido pelo povo como tal e personifica a nação.

As monarquias constitucionais na Europa não estão fixadas em linhas fósseis, são do ponto de vista sociológico os países mais progressistas onde a naftalina que protege os trajes não impede de olhar para a frente sem esquecer tudo o que proporcionou que hoje sejam países admirados, socialmente estáveis e com indicadores de desenvolvimento invejados por qualquer república. Não é por isso verdade o que Ascenso Luís Simões diz e os monárquicos portugueses, chefiados por Dom Duarte Pio, certamente farão melhor que os republicanos fizeram no século XX, um século perdido e falhado em Portugal.

Quando se pretende discutir o pensamento monárquico e as razões pelas quais ele aparenta não estar presente ou existir, podem-se procurar respostas nos monárquicos, mas também na república que, a começar pela sua Lei Fundamental, é castradora. Os aspetos referenciados pelo deputado Ascenso Luís Simões, como o municipalismo, a língua e a ecologia não desapareceram, mas antes foram simplesmente ignorados pela classe política portuguesa. Basta, por exemplo, ler tudo o que o arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles escreveu nas últimas décadas e foi ignorado.

O movimento monárquico é pluralista, diverso, heterogéneo e, como tal, a sua grande bandeira é a Causa Real, a defesa dos valores nacionais suprapolíticos e, acima de tudo, o orgulho de ser português encabeçado por aquele que, por razões históricas, provém de uma família cuja história se confunde com a da própria nação, personificando-a com um espírito de missão.

A afirmação dos monárquicos nos mais diversos setores da sociedade é necessária, mas é preciso ultrapassar algumas “pequenezes” e preconceitos da sociedade que considera um sinal de coragem a assunção da condição de monárquico.

Concordo que é a necessária a normalização da opção monárquica, mas discordo em absoluto que a sua consagração seja díficil. Relativamente à desistência do debate sobre o regime em que vivemos, acho que é um não-assunto porque não se pode desitir de algo que uma das partes não quer debater. Com efeito, são os republicanos, o seu regime e a sua Lei Fundamental que não deixam que o debate seja efetuado de forma livre, descomplexada e, acima de tudo, esclarecedora.

Não podemos ter outro século como o século XX. É o País que não pode esperar!

P.S. – Não deixem de ler a resposta do Presidente da Real Associação de Lisboa aqui e do Presidente da Causa Real aqui.

 

 

 

 

 

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