Resposta a Ascenso Luís Simões – 3.0

O deputado Ascenso Luís Simões parece destilar ódio por tudo o que é o passado de Portugal. Com efeito, quem acompanha as suas opiniões fica com a sensação que apoiaria a ideia de apagar tudo o que aconteceu antes do dia 25 de abril de 1974.

Já tive oportunidade de responder às opiniões do senhor deputado em duas situações. A primeira em 2017 relativamente à sua discordância na inclusão do Senhor D. Duarte no protocolo de Estado e a segunda em 2018 sobre as suas considerações em relação à causa monárquica em Portugal por ocasião da comemoração dos 210 anos da chegada da Corte Portuguesa ao Brasil.

Ora, agora o tema passa, por entre outras coisas, pela destruição do Padrão dos Descobrimentos, pelo esquecimento rápido que o país faz do seu passado, pela limpeza da memória dos elementos que são danosos, pela inexistência de um império português que, segundo Ascenso Luís Simões, foi apenas uma criação de Salazar.

Vamos por partes. Comecemos talvez pelo mais importante que é a dimensão de Portugal e de ser português. Não é novidade para ninguém que temos o complexo de sermos pequeninos. Será que esse complexo não advém da vergonha de termos sido grandes? Mas será que temos que ter vergonha? Ou será motivo de orgulho para todos nós o facto de Portugal ter deixado a sua marca pelos cinco continentes? E é preciso recordar que estas marcas não estão associadas a genocídios como aconteceu na época dos Descobrimentos em muitos países da América Latina?

Portugal e os portugueses deixaram construções físicas (fortes, pelourinhos, igrejas, entre outros), mas mais do que isso deixaram influências culturais noutros povos que hoje são evidentes nas respetivas línguas ou culturas gastronómicas, por exemplo.

Dada a belicosidade das opiniões de Ascenso Luís Simões, atrevo-me a dizer que para ele Portugal só teria sido um verdadeiro império nos séculos XV e XVI se tivéssemos exercido a nossa força e poder com base em ações militares, como tantos outros países colonizadores fizeram.

Outra das opiniões muito criticáveis do senhor deputado é a destruição do Padrão dos Descobrimentos, que vem no seguimento de uma nova moda pelo mundo que passa pela destruição de estátuas e outras marcas históricas por parte daqueles que acham que a história deve ser apagada, por parte daqueles que em nome da democracia querem impor a sua opinião. Não será isto um paradoxo? Mas quem é que tem o direito de decidir o que se mantém e o que se destrói? Mas quem é que tem o direito de decidir o que é bom para nossa memória e o que é mau? Recuso-me a aceitar este tipo de comportamento impositivo de quem enche a boca com a palavra democracia.

Sim, o Padrão dos Descobrimentos foi construído para um evento de glorificação de Portugal durante o período salazarista. Mas também durante o período salazarista foi construída, por exemplo, a rede de escolas primárias que a terceira república não soube cuidar e que ainda hoje são a casa de muitos alunos. Foi também durante o período salazarista que foram construídos os dois maiores hospitais de Portugal que combatem como podem a pandemia, mas que a terceira república não soube cuidar, renovar, melhorar e ampliar. E não é demais recordar que ainda são as duas principais casas de formação dos médicos portugueses. Vamos também deitá-los abaixo, uma vez que são obras do regime salazarista?

Não me entendam mal! Não sou salazarista e muito menos defensor daquele período! Foi muito mau para Portugal e para os portugueses e nunca deverá ser esquecido para nunca mais voltar uma ditadura de quem diz o que vai abaixo e o que fica de pé, o que se lê e o que não se pode ler.

Não se faz uma limpeza da memória dos elementos danosos para a democracia, como defende Ascenso Luís Simões. A limpeza da memória é um processo pouco democrático e pouco recomendável. Não se destroem os campos de concentração nazis, nem os gulag. É importante que não sejam esquecidos. Eu não quero que me limpem a memória, eu quero decidir o que gosto, o que não gosto, o que vejo, o que não vejo e, acima de tudo, não quero que ninguém decida isso por mim.

Não podia terminar este ponto sem recordar que Salazar é o produto de uma primeira república que levou o país para uma situação insustentável e indescritível. O período do designado Estado Novo nunca teria acontecido se os republicanos não tivessem feito tantas asneiras a acrescer ao assassinato do chefe de estado legítimo de Portugal.

Para terminar, tenho que deixar claro que o deputado Ascenso Luís Simões faz parte de uma geração de políticos que não foi capaz de melhorar Portugal, que não foi capaz de nos retirar da cauda da Europa. Quero com isto dizer que em Portugal se vive pior do que há 40 anos atrás? Não! Quero dizer que na altura estávamos na cauda da Europa e hoje continuamos lá! Melhorámos, mas não ultrapassámos ninguém, porque os outros melhoraram tanto ou mais do que nós. Aliás, fomos inclusivamente ultrapassados por aqueles que há 40 anos nem sonhavam fazer parte de um projeto europeu e partindo muito depois de nós hoje estão mais perto da meta. Quanto a Portugal, só consegue ver as costas de quem vai à sua frente e para o bem e para o mal Ascenso Luís Simões faz parte dessa geração de políticos.

Em resumo, é porque vivemos num país onde os monumentos não vão abaixo porque alguém decide, nem as memórias do passado são apagadas dos livros de história que Ascenso Luís Simões pode emitir a sua opinião e eu também!

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