Afinal quem são os burgueses?

Há uma semana escrevi um artigo, no qual explicava as razões pelas quais considero que Portugal nos últimos 110 anos é um país de tentativas falhadas, portanto, um país constantemente adiado.

Não nego que o que desencadeou o meu texto foi a proposta da Professora Susana Peralta para a criação de um imposto extraordinário àqueles que ela intitulou “burgueses do teletrabalho”. Constatei ainda, com muita surpresa, que outras personalidades, como o Professor Poiares Maduro, partilham da mesma ideia.

Depois de uma semana de discussão à volta deste tema, de reflexão, mantenho a minha opinião que o problema que vivemos é estrutural e não circunstancial. Como já disse, a pandemia veio amplificar as inúmeras fragilidades de um país que não está preparado para viver crises e ao qual não pode ser aplicado o adjetivo de resiliente.

Não caiamos no erro de tornar a pandemia a raiz de todos os nossos males, porque estes vêm de trás, porque estes perseguem-nos há muito tempo e pouco ou nada temos feito para nos defender.

Mas voltemos aos burgueses. Quem são afinal os burgueses que impedem que o país recupere da situação que vive, que impedem que a economia não consiga aguentar esta crise, que têm que suportar mais um imposto? São aqueles que estão em casa a tomar conta dos filhos, enquanto atendem o telefone (muitas vezes particular) e “gastam” a sua internet em benefício das organizações onde trabalham, ou são aqueles que andaram na juventude a colar uns cartazes partidários (que depois nunca descolam) à espera que mais tarde lhes seja oferecida uma cadeira qualquer num ministério, numa direção-geral ou num instituto público?

Quais são os burgueses a quem querem impor um imposto extraordinário? São os que às vezes nem 1000 euros ganham e estão em casa ao serviço das suas organizações com superiores hierárquicos que se gabam do teletrabalho aumentar a produtividade porque entendem que os seus colaboradores, como estão em casa, estão sempre disponíveis e sem horário de trabalho? São os funcionários administrativos das autarquias e da administração central? São o pessoal técnico das instituições públicas? São os professores que inventam formas de dar aulas através de um computador? São os rececionistas que ficam com o número das instituições onde trabalham reencaminhado para o seu telemóvel e passam o dia ao telefone? São estes os burgueses que devem pagar a crise económica criada por esta pandemia?

Reitero que os problemas que vivemos não são de agora! E o que eu gostaria era que todos nós nos indignássemos com outro tipo de burgueses que circulam entre nós há muitas décadas. E que burgueses são estes? São os que num dia atendem o público num qualquer balcão bancário e no dia a seguir são administradores desse banco e aproveitam-se dessa situação para benefício próprio. São aqueles que viajam pelo mundo inteiro em classe executiva e se pavoneiam em lounges de luxo com o dinheiro dos nossos impostos. São aqueles que acumulam as milhas pagas pelo erário público para depois usarem nas férias ou oferecerem aos amigos. São aqueles que circulam em carros topo de gama pagos integralmente pelos nossos impostos, inclusivamente quando os danificam por culpa própria. São aqueles que hoje são ministros e amanhã são presidentes dos conselhos de administração das grandes empresas a quem os seus ministérios deram muito dinheiro a ganhar. São aqueles que usam os motoristas das instituições públicas para ir às compras ou para levar ou buscar os filhos à escola. São aqueles que cometeram falhas éticas graves, que por pressão da opinião pública têm que se demitir e a quem logo a seguir é oferecido outro cargo. São aqueles que criam verdadeiras teias de nepotismo na administração pública. São aqueles que adjudicam contratos aos pais e aos filhos. São aqueles que saltam de cargo público em cargo público com objetivos pessoais e nunca tendo como prioridade defender o país e os portugueses. Estes e muitos mais são os verdadeiros burgueses que importa eliminar e que são responsáveis pela falta de resiliência que Portugal manifesta.

Há uma coisa que esta pandemia nos devia ensinar a dizer: BASTA! Não queremos mais movimentos extremistas à esquerda e à direita porque os moderados fazem mal o seu trabalho. Queremos pessoas que vejam a expressão “serviço público” no seu sentido literal.

E por tudo isto digo que se acabem com os burgueses que não foram capazes de preparar o país para ser mais resiliente.

E por tudo isto digo, mais uma vez, que o problema que vivemos é estrutural e como todos os problemas estruturais só se resolve atuando sobre a estrutura e não aplicando medidas mitigadoras que reduzem a dor, mas não o mal que a causa.

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